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Noé e o devir-pedreiro
Filho de mãe indígena (ainda que ninguém da família saiba, com certeza, de qual povo) e de pai com ascendência portuguesa, Noé Silveira, meu avô materno, foi um hábil pedreiro e poceiro (dominava a arte não apenas de cavar poços, mas sabia com o corpo e com uma forquilha de pessegueiro encontrar água abaixo da terra
Nascido na cidade Tupaciretã-RS, viveu também em Pelotas e em Porto Alegre.
Com minha avó Solange da Silva Silveira, de quem herdo genealogia africana, criou
três filhas: Lúcia, Vera e Rosana. Muito embora construir casas tenha sido o seu
principal ofício, ele próprio viveu grande parte de sua vida em construções simples,
chegando a morar em barracos de compensados e laminados de madeira achados por aí, reutilizados em uma função que deles exigia mais do que a sua resistência
poderia oferecer. No alto do morro os ventos não são como em seu pé.
O pedreiro Noé tinha grande interesse por história, sobretudo história da guerra. Escutava exclusivamente música clássica. Cabelos grisalhos, a cor de sua pele se confundia com a da cuia do chimarrão, que bebia regularmente. Café com farinha de mandioca e leite com polenta. Contam minha mãe e minhas tias que, em determinado momento de sua vida, chegou a trocar sua casa por um rádio.
Lembro-me ainda da minúscula casa que construíra e morara com sua parceira de vida, Solange (minha avó) e com Rosana (minha tia, a mais nova das três filhas) durante anos. O interior da pequena casa refletia o rosa-tapume das paredes que outrora protegiam construções de grande porte. Paredes finas que balançavam no alto da Colina do Prado do início da década de 1990, na época ainda com poucas casas.
Em pouco tempo Noé tornou-se conhecido por construir e colaborar na construção de muitas casas na comunidade que ali se formava, na Colina do Prado.
Em minha infância acompanhei muitas paredes serem, tijolo por tijolo, tábua por
tábua erguidas. Entre estas paredes, estavam as de minha casa. As casas, diferentemente dos apartamentos, propiciam o contato com a terra, mas não apenas: favorecem as zonas de contato entre as vidas das pessoas.
Há uma força que passa a compor com minha produção que certamente é irradiada pela vida que meu avô ergueu. Isto, que eu gosto de chamar de “devirpedreiro”, tem se manifestado sob a forma-ferramenta e, posteriormente, sob a forma-casa, atualizadas sob as perspectivas poéticas.
Assim, estabeleci contato com as ferramentas do universo do pedreiro desde muito cedo. Na infância brincava com muita seriedade com uma caixa de ferramentas de madeira pintada de marrom descascado e alça de couro, presente de meu avô paterno. Não se tratava exatamente, como se vê hoje, de brinquedos de plástico que simulam ferramentas, mas de “reais ferramentas” em tamanho pequeno: martelo, alicate, espátula, colher de pedreiro, desempenadeira, esquadro,entre outras.
Com atenção na dimensão da produção de um corpo, além da pequena caixa de ferramentas, percebo apenas recentemente o quanto a vivência que tive com meu avô (mas também com meu pai, embora não seja pedreiro de ofício, e meus tios) vem produzindo afetos na construção de meu corpo, os quais ganham forma através de procedimentos poéticos. Acompanhar seu ofício de pedreiro acontecendo, colaborar carregando madeira ou tijolos, pregando ou fazendo a massa com cimento, areia e água. O ritmo e o risco da martelada ou do serrote diferem consideravelmente do gesto que envolve preparar a massa (cimento) ou assentar os tijolos, manejar a pá e a enxada, carregar o carrinho de mão.
Meu envolvimento nas diferentes fases de construção de minha casa foi muito distinto. Desde brincar até colaborar efetivamente para a construção, como uma espécie de auxiliar de pedreiro, as ferramentas sempre foram presença frequente
em nosso cotidiano.

Rafa Éis, 2017.

IMAGENS

 

Videos

O contato com o dispositivo [enxada], 2015.
Registro de Giuliano Lucas.
Porto Alegre, Brasil
2015.

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